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Princípios Estratégicos II

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 29 de agosto de 2012 | 11:48

Nesse post, como complemento dos postulados de Steinitz já estudados em artigo anterior ... trazemos na prática exemplos da avaliação posicional feita por grandes nomes do xadrez, mas primeiro vamos entender um pouco mais a respeito do Plano Estratégico:

Todo jogador que busca a própria superação enxadrística deve construir o hábito de pensar em função de planos estratégicos. Ao obter cada vez mais experiência prática e conhecer as melhores criações dos grandes mestres da história (por isso a importância do estudo dos clássicos e dos mestres atuais), o jogador aprende a relacionar os movimentos entre si e alcança o êxito de suas próprias jogadas e partidas não saiam de uma maneira qualquer e independente, mas sim por meio de princípios gerais que as guiam, isso dito em um ditado popular, é dizer que por conhecer por meio de um estudo prévio os princípios e ideias que já circulam o enxadrista não precisa em todas as suas partidas reinventar a roda. É importante mencionar que os planos nunca devem ser escolhidos de uma forma qualquer, feita por uma ideia de eu acho que esse plano é bom e sim por meio de uma análise precisa dos fatores posicionais já estudados como a estrutura de peões, as casas débeis, a mobilidade das peças, segurança dos reis, domínio do centro, vantagem de espaço, vantagem material, etc.

O jogador deve enumerar diversos planos, alguns de um largo alcance, por exemplo uma troca guiada na abertura pensando já em como seria o final da partida devido aquela escolha, mas dentro desse plano maior, no decorrer da partida fará outros planos a curto prazo para concluir um plano a longo prazo. E este planejamento deve ser o fio condutor de nossas escolhas. Como exemplo, suponhamos que um jogador avalia que tem como melhor plano atacar o rei inimigo e com isso tem como objetivo de levar a maior quantidade de forças até o flanco em que o rei está (plano a longo prazo). Esta transferência será feita por meio de diversas manobras, busca de melhores casas para suas peças, pelo bloqueio ou eliminação das peças defensoras do adversário, entre outras coisas (planos a curto prazo).

Quais poderiam ser as condições ideais para executar um eficiente plano estratégico?

1-Os planos devem ser bons para si. Isto parece óbvio, mas em muitas ocasiões os jogadores perseguem falsos objetivos que só prejudicam sua posição ao invés de melhorá-la, como exemplo, atacam na ala errada, escolhem casas ruins com o intuito de melhorar suas peças, avançam seus peões de forma a debilitar sua própria posição, entre outros. 

2- O plano deve ser realista e objetivo. O jogador tem que estar seguro da sua escolha e de que suas intenções poderão ser realizadas e que o adversário terá que ceder algo positivo a nós para tentar evita-lo. Não podemos esquecer de buscar e também encontrar os possíveis planos do adversário para destruí-los de acordo que construímos os nossos.

3- Devemos ser flexíveis,  é importante ser  consistente em nossos objetivos, mas no geral a tendência é que nosso adversário não deixe que executemos livremente e tentará a todo instante refutá-lo. Isto as vezes faz com que não seja possível sempre limitarmos a um só plano ao longo da partida, e devemos muitas vezes modifica-lo sempre que a posição mude seu caráter, por conta das simplificações, ou das escolhas de nosso oponente.

4- Os planos devem ser taticamente corretos. Um ponto básico no xadrez no que se refere a imprescindível harmonia entre tática e estratégia. Em termos mais concretos e imediatos temos: (sacrifícios, combinações, manobras  ganhadoras) sempre terão  prioridade sobre os fatores estratégicos mais abstratos. Não tem sentido formular um “excelente” plano a longo prazo se o adversário conta com uma imediata sequência decisiva de jogadas.



Emanuel Lasker - José Raúl Capablanca San Petersburgo 1914

Analisemos a posição a seguir pelos princípios já estabelecidos:


1) Comparação da situação material: Existe equilíbrio de peças e peões. As brancas tem o par de cavalos contra  cavalo e bispo pretos.  

2) Mobilização das peças (controle de linhas e diagonais abertas): Aqui se aprecia una marcada diferencia na mobilidade das peças brancas e pretas. As torres brancas ocupam a coluna “h” e podem também dirigir-se também a coluna “a”, para penetrar na posição rival por meio da 7ª ou 8ª filas. As torres pretas e o bispo de b7 estão passivos realizando somente funções defensivas. Já o cavalo branco de e6 ocupa uma excelente casa e o de c3 pode ficar mais ativo de forma rápida.

3) Domínio do centro (maior espaço): As brancas tem uma clara vantagem de espaço.

4) Estrutura de peões (Casas fortes e débeis): As pretas tem casas débeis em e6 e já aproveitada pelo poderoso cavalo brancoe peões vulneráveis em d6 e f6. O cavalo preto pode ocupar as casas c4 e e5, mas que não tem tanta importância na luta. Mesmo assim é difícil que as pretas aproveitem as debilidades dos peões em b4 e e4 das brancas.

5) Segurança dos reis: O rei branco está bem protegido em g3 e o rei das pretas parece estar com algumas problemas pela limitação de suas possíveis casas de escape.

Por tudo considerado nestes cinco princípios podemos concluir que as brancas conduzidas por Lasker possui uma clara vantagem. Por isso deve atuar com a maior rapidez já que sua superioridade pode ser colocada em risco se as pretas conseguem melhorar suas peças por meio de Cc4-Ce5, Te7, Bc8.

Portanto, qual deve ser o plano de jogo das brancas?

1- Ativar o cavalo de c3 ( pois é única peça que não está suficientemente ativa)
2) Penetrar com as peças nas casas débeis das pretas.
3) Atacar os peões débeis e o rei preto.

Vejamos como Lasker conduziu essas ideias e venceu ao ilustre Capablanca:

1.e5!  Excelente sacrifício de peão para deixar a casa e4 para o cavalo de c3 de onde poderá atacar os peões de d6 e f6.   
1- . . .,    dxe5 A captura 1...fxe5 perderia o peão de  g5 que deixaria as brancas com dos peões passados e unidos. A jogada da partida cria outra debilidade, na casa c5. (observe como ao longo da partida pode surgir novas debilidades que temos de detectar para aproveitá-las ao máximo.)
2-Ce4  Cd5  3-C6c5!  Bc8 As pretas sacrificam a qualidade já que a torre não podia se mover por causa da entrada do cavalo em d6 com xeque e ganhando o bispo. 4-Cxd7 Bxd7 5-Th7!  Tf8 6-Ta1! Com seus dois últimos movimentos Lasker ativa suas torres para lançar-se ao ataque final. 6- . . ., Rd8 7.Ta8+  Bc8 8.Cc5!

Capablanca se rende ao analisar que não teria defesa contra as ameaças de mate a partir de 9.Ce6+, 9.Cb7+ ou 9.Td7+. Esse famoso exemplo merece ser sempre lembrado como uma das jóias clássicas.

Acompanhe também o próximo post com o mesmo tema de Plano Estratégico jogada pelo genial Paul Morphy, um dos jogadores analisados por Steinitz que na partida estudada e comentada derrotou seu adversário pura e simplesmente pela melhor compreensão dos princípios básicos do jogo posicional.



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