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Magnus Carlsen: A marca de um Gênio

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 3 de janeiro de 2012 | 01:43

Com apenas 21 anos Magnus Carlsen já é um grande mito do xadrez, assumiu a ponta do ranking da FIDE e cada vez mais de distancia dos outros jogadores, está a trinta pontos de rating do número 2 do mundo Levon Aronian (2805) e 34 pontos do terceiro colocado Vladimir Kramnik. O atual campeão mundial está na quarta colocação e tem menos de 2800 (2799). O fato é, Carlsen está a apenas 16 pontos da maior marca alcançada por um jogador, no caso, seu ex-tutor Garry Kasparov chegou a 2851 no ano de 2000. Com o jovem tão em alta, fomos buscar um belíssima entrevista no qual o prodígio trata de diversas temáticas e abre um pouco mais da sua história, desconstruindo mitos e falando de sua relação com Kasparov, sua preparação para os torneios entre outras coisas. A entrevista é um pouco extensa, mas tentamos ao máximo ser fidedignos na tradução do texto, acompanhem:


Magnus Carlsen - "Eu não entro nos esquemas usuais"
Entrevista do site ChessPro.ru

Após o Memorial Tal em Moscow Magnus Carlsen deu uma longa entrevista publicada no dia 22/12. Valeu a pena esperar, pois ela oferece uma visão notável sobre o que faz ele se destacar no mundo do xadrez. Carlsen fala sobre sua preparação com os computadores, da cooperação de Garry Kasparov, entre outras coisas mais.

Carlsen falando de si:
Eu sou um jogador de xadrez profissional, e por isso, devo fazer tudo o que sou capaz de cumprir frente ao meu potencial. Gosto de ganhar e me esforço para os melhores resultados possíveis . Ao mesmo tempo, eu ainda consigo ter muita diversão com o jogo! Durante uma partida deixo de pensar sobre o resultado, pois eu fico muito encantado com o que está acontecendo no tabuleiro.
Em termos deste torneio recordo dois jogos - contra Gelfand e Kramnik. Eu simplesmente adorei quando chegamos a posições não convencionais! Se cada jogo pudesse ser tão interessante quanto esses seria bom. Mas o xadrez, infelizmente, não consiste apenas de criatividade.


Qual seria a sua atitude frente a estes dois jogos, se não tivessem terminado tão bem para você a partir do ponto de vista do resultado?

 O resultado é sempre importante, é claro, mas eu estou falando sobre a obtenção de prazer do jogo.

Você está falando sobre o prazer abstrato do jogo ou sobre a capacidade de transformar o curso do jogo em seu favor?

Acima de tudo eu gosto de resolver as tarefas não convencionais no tabuleiro. Talvez por isso eu realmente não goste de estudar a abertura - tudo começa de uma certa posição.

Sobre seu trabalho no xadrezQuanto tempo você dedica ao xadrez?

É difícil para eu falar. Quando estou em um torneio ocupo todo o meu tempo. Nesse ponto eu fico 100% focado no jogo. Desligo a televisão, telefone, não existo para ninguém. Quando estou em casa, se eu não tenho uma sessão de treinamento e não há torneio próximo, eu não estudo de xadrez todo o tempo.

E você como mantém sua "condição desportiva"?

Bem, eu vejo coisas que tomam o meu interesse. Faço download de jogos recentes. Eu não sei, nada específico. É difícil falar sobre qualquer trabalho segmentado. Pode parecer estranho, mas eu aprendo muitas coisas simplesmente por olhar para os jogos. Eu não analiso-os, eu não uso os engine, apenas percorro-os um por um, olhando para novas idéias, que trazem...

Você acha que tem um talento específico de xadrez?

Eu não sei. Todo mundo tem um monte de talentos diferentes. Provavelmente eu tenho algo assim, mas eu não posso ter 100% de certeza. 

Sabe-se o que é?

Eu só posso julgar em termos do que os outros dizem sobre mim. Quando eu tinha uns 12-13 anos muita gente disse que eu tinha um talento grande no xadrez, que eu me transformaria em um grande jogador. Nesse ponto eu basicamente não me incomodava se eu havia me tornado um jogador forte ou não - eu simplesmente joguei e gostei ...
Na verdade é muito difícil determinar quem é mais talentoso e quem é menos. Ou quem vai se tornar um jogador de xadrez realmente grande, e quem não vai.






Ainda me lembro da cena com Alexander Nikitin, treinador de Kasparov, que em um dos primeiros "Aeroflots" estava ao lado de sua mesa e testemunhou você esmagar Dolmatov em 20 movimentos. Ele então deu a volta ao salão com a súmula daquele jogo e para todo mundo sem fôlego falava: "Este é o jogo de um gênio" .

Sim, eu me lembro que, eu tinha 13 anos (risos). Quero agradecer Nikitin pela boa promoção que fez de mim, então. Ele é uma figura de autoridade, e eu sequer ouvi falar sobre isso quando voltei para casa. Sim, ele também previu um grande futuro para mim.

E você ficava embaraçado ou perturbado por toda a conversa sobre ser gênio?
 Eu vou dizer outra vez: Eu nunca me considerei um gênio do xadrez, e eu nunca foquei nas avaliações de outras pessoas. Eu também reajo a elas com calma .

Quanto mais lento você acha que o seu desenvolvimento do xadrez teria sido se você não tivesse o computador em mãos?

Eu não sei. Eu nunca pensei sobre isso. Parece-me (parar para pensar), que o computador não tinha nenhum tipo de influência fundamental sobre mim, pessoalmente.

Isso é difícil de acreditar ... Você se destaca justamente por estar pronto para jogar qualquer posição "em vista", e estar pronto para defender as posições onde os "estranhos" movimentos da máquina são necessários .

Mas isso é como era. Posso dizer que nos primeiros anos eu não usei a ajuda da máquina, nem mesmo como um banco de dados! Naquela época, eu simplesmente colocava um tabuleiro em minha frente, pegava os livros que eu estava estudando no momento e estudava. E a primeira vez que eu precisei de um computador para o xadrez foi quando comecei a jogar na Internet.
Honestamente, quando eu tinha uns 11-12 anos eu nem sabia o que era ChessBase. Sei que soa pouco plausível ouvir isso da minha boca – e a maioria das pessoas me consideram um produto do "computador de xadrez". Não tinha para mostrar aos meus treinadores bases de dados, ou a minha análise .

Você tem algum caderno da infância com as análises que podem ser "prova documental" disso? Há alguma "testemunha viva"?

É claro que não foi de qualquer maneira, mas você pode simplesmente pedir ao meu pai. Todas as anotações , eu não tenho certeza. Particularmente não fazia.


Portanto, o seu entendimento de xadrez, o seu sentido posicional - é tudo humano?


Acho que sim. Meu entendimento de xadrez fundamental foi formado sem o envolvimento da máquina. Essa foi a minha abordagem ao xadrez, a minha ideia da luta.

Em seu estilo

Você pode se chamar de tático ou estrategista?


Eu me chamo um otimista! Na realidade eu não tenho qualquer preferência clara no xadrez. Eu faço o que eu acho que as circunstâncias exigem de mim - eu ataco, defendo ou levo para o final. Ter preferências significa ter pontos fracos.

Você poderia comparar suas impressões depois de uma vitória em um final ou de um ataque sutil, destruidor? Será que realmente não diferem em nada para você?

Eu realmente não sei o que eu mais gosto no xadrez! Entre outras coisas, em um jogo posso destacar o sentimento dele quando acaba, quando você percebe que você criou algo que realmente vale a pena . Mas algo como isso acontece muito, muito raramente. Ao longo de todo o curso da minha vida - apenas algumas vezes.

Bem, e se você é apenas um espectador, que tipo de jogo você gosta mais?

Eu não sei. Eu gosto da luta em si.


Aberturas

Carlsen concorda com a ideia de que o estudo das aberturas ocupa por volta de 80% do tempo de preparação do jogador, por isso a seguinte pergunta:

Vendo seus jogos e tomando por base o Memorial Tal, nas primeiras quatro rodadas você poderia ter marcado 0 em 4, dada as aberturas, mas não, você marcou 3,5 em 4. E assim você tem superado constantemente seus adversários ...


Provavelmente isso ocorre porque eu amo o meio-jogo e final muito mais do que a abertura. Eu gosto quando o jogo se transforma em uma luta de ideias e não uma batalha entre análises caseiras. Algo que, infelizmente, não muitas vezes acontece.

Não diz respeito a você?

Até certo ponto, mas que posso fazer?

Se dedicar mais na abertura, como os outros fazem ...

Eu já trabalho mais nela do que quero.

Mas, ao mesmo tempo,  você é geralmente inferior a eles?

Sim. Não é segredo para as pessoas que minha preparação na abertura é inferior a de Anand, a de Kramnik e muitos outros. Eles têm bem mais experiência e idéias preparadas. São grandes especialistas nisso! Eu tento colocar minhas peças de maneira correta no tabuleiro, para que a vantagem deles não sejá tão grande a ponto de eu perder imediatamente.

Sobre o trabalho com Kasparov

Que impressões o trabalho com Kasparov deixa em você? Se não for um assunto proibido.

Não, não é um problema. Começamos a trabalhar juntos em 2009, e trabalhamos bem de perto por mais de um ano. Tivemos reuniões pessoalmente, bem como constantes conversas no Skype. Analisamos muita coisa juntos, jogamos, trocaram opiniões.

Qual foi o principal benefício que você teve em trabalhar no jogo com ele?

Graças a ele eu comecei a entender toda uma classe de melhores posições. É claro que ele sabia muito mais do que eu. Às vezes era difícil manter-me com a velocidade e profundidade de sua análise, mas menos frequentemente do que quando estávamos na mesma sintonia. O que posso dizer: foi uma experiência única para mim. Kasparov deu-me uma grande ajuda prática.
Ele estava espantado com o nível de sua preparação na abertura?

Sim, ele ficou chocado com o quão pouco eu sabia ... Mas não se concentrou sobre essa questão. Ele compartilhou os seus métodos de trabalho da abertura comigo, e eu sou grato a ele. Graças a ele eu avancei nessa área.

O que mais Kasparov compartilhou com você?



Ele me disse muito sobre as peculiaridades da luta, e muita coisa sobre determinados jogadores de elite. Ele tem uma visão muito original sobre os melhores jogadores do mundo.
Você se atordoou com a energia que ele ainda tem com 46 anos?

Sim, ele é muito homem "enérgico"! Parece que ele simplesmente compartilha sua opinião com você, mas na realidade ele está ditando como você deve agir ...
Vocês avaliavam as posiçoes de forma muito diferentes?
Uma grande quantidade ... Kasparov é um pesquisador, e ele olha para todas as posições como se fosse um teorema que deve ser provado, enquanto eu sou mais pragmático - eu procuro a melhor forma de usar as oportunidades para ambos os jogadores. Ele tenta de tudo para trazer uma avaliação final, + - ou - +, enquanto eu não sou tão meticuloso, e a principal coisa para mim é encontrar um caminho que vale a pena seguir. De algumas coisas que ele disse que eu percebi que a minha abordagem é amplamente associada por ele com a forma como tomou decisões Karpov. Que ele conhecia como ninguém mais - eu não posso dizer que foi desagradável para mim ouvir essa avaliação ...

Você muitas vezes competiu com Kasparov?
No tabuleiro? Sim, nós jogamos um monte de jogos blitz! Foi uma batalha interessante. Às vezes era difícil para ele - você podia sentir que ele estava meio sem prática.
De seus jogos você pode imaginar quão forte Kasparov foi em sua juventude?
Ele é um jogador fantástico. Eu nunca vi alguém ser tão dinâmica em posições complexas. E ainda em seus 40 anos! Claro, teria sido muito interessante jogar contra Kasparov naquela época, mas como você sabe, nós não podemos voltar no tempo ... Eu acho que teria sido um desafio maravilhoso. Eles dizem que Karpov também foi magnífico em sua juventude.
Você se arrepende de que a sua cooperação com Garry finalmente chegou ao fim?
Eu não sei. Há um tempo para tudo ... Kasparov e eu nos separamos em termos, perfeitamente amigável, sem se ofender. Eu considero que ele tenha me dado uma grande quantidade de conhecimento útil. Acho que foi interessante para ele também. [...] Ninguém pode dizer como as coisas seriam agora se tivéssemos continuado a trabalhar juntos. De onde eu estou hoje acho que a divisão foi o passo correto.

Em um sentido você conseguiu tudo o que queria de Kasparov?
Pode ser que sim, embora não haja garantias. Talvez em algum momento me arrependa da minha decisão. Mas talvez não...
De seus treinadores e de outros, ficou claro que Kasparov ficou desapontado que tenha terminado a parceria, como se você virou as costas para o "conhecimento sagrado" ...
É difícil para mim julgar. Talvez eu o  tenha desapontado, mas essa foi a minha escolha.
E a vida segue?

Sim, exato! Me parece que é um erro reduzirmos a nossa vida a apenas uma ou duas escolhas. Tomei o caminho errôneo - e pronto. Penso que não funciona assim. Não creio em "erros fatais". E mesmo que eu cometa alguns erros, são os meus erros, e assumirei a responsabilidade por eles.


Fontes:
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+ comentários + 4 comentários

Anônimo
3 de janeiro de 2012 06:17

"Às vezes era difícil manter-me com a velocidade e profundidade de sua análise"
hahaha
Kasparov eh foda demais!

3 de janeiro de 2012 09:51

O Kasparov era incrível mesmo!!

2 de fevereiro de 2012 14:13

Em alguns jogos, ficou nítida a mudança de postura de Calsen, com Kasparov treinando-o, principalmente em alguns fundamentos de defesa.

Até o início da parceria, Carlsen vinha usando defesas um tanto manjadas, embora ainda eficazes, como a "Sicilian Dragon" [note que faz tempo que não a usa]. Notei que ele passou a desenvolver-se bastante, por exemplo, na Ruy Lopes [que até então, não era o seu forte], até como opção, talvez, para forçar empates contra Super_GM´s em momentos que ostenta larga vantagem no certame [o que é frequente].

Essa parceria foi decisiva, no meu entendimento, para alavancar ainda mais o gigantesco potencial deste prodígio, e é muito bom vê-lo liderar, com todo mérito, o ranking mundial e jogar "a la Kasparov" em frequentes ataques poderosos com sólida manutenção de pequenas vantagens posicionais!

3 de fevereiro de 2012 18:27

Dois gênios contemporâneos, e que com certeza contribuirão ainda mais para o xadrez! E o estilo de Carlsen apesar de ser ímpar, tem sim muitas bases claras nos clássicos o que não podia deixar de haver uma grande dose de Kasparov...

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