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A última crônica de Tal João

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 28 de dezembro de 2011 | 10:44

O xadrez é uma das poucas atividades no mundo, em que crianças, jovens e adultos podem se enfrentar de igual para igual, pois o que voga é a capacidade do pensar, cálculo e raciocínio lógico brutos que sobressaem ao tamanho do indivíduo, massa muscular, etc. O texto original dessa crônica é de João Carlos da Costa e foi publicada no dia 22 de dezembro no site: www.clubedexadrez.com.br . Fizemos questão de publicar a matéria por exaltar um dos maiores talentos, senão o maior que tivemos a oportunidade de formar em nossa cidade. Nosso Alberto T. Bonvini (foto) é 100% prata da casa, e além de uma boa disciplina em treinos e estudos é bem assessorado pela família que não mede esforços para o levar aos melhores torneios, muitas vezes abrindo mão de outras coisas particulares para incentivar esse talento, e o garoto tem respondido a altura tantos incentivos (Campeão Brasileiro, Bi-Campeão Paulista em sua categoria). Confira nas palavras do Prof. João, o que tem a dizer do Albertinho após a partida jogada no II Open de Batatais:

A última crônica de Tal João, o Mago de Guaxupé
Por João Carlos da Costa

Do alto dos meus quase 50 anos de vida, dos quais 35 são dedicados ao xadrez, venho de público confessar que ainda tenho muito o que aprender. Tanto na vida como no xadrez. Eu que imaginava que nunca mais iria levar uma miniatura, levei em Batatais (terra natal do grande mestre Gilberto Milos Jr). Meu algoz foi um MI que muitos dizem estar numa má fase. Mas, vá jogar contra um deles pra ver...
Foi graças a esta miniatura e a um perpétuo que deixei escapar na 2ª rodada, que pude conhecer o Alberto Tonhati Bonvini na última. Garotinho de 8 anos de idade que tinha tudo para não oferecer nenhuma resistência a um jogador experimentado como eu.

Chegando ao salão de jogos, o que vejo? O Albertinho reproduzindo uma partida ao lado de seu professor Paulo Faria e provavelmente de sua mãe. Ainda brinco: "Preciso conhecer o jogo deste menino!" Fiquei sabendo que a partida em questão, era a miniatura que levei. Pra minha sorte, a Defesa Siciliana ainda não faz parte do repertório do Albertinho.

Começamos a partida e eu com aquele sentimento de dúvidas entre manter a minha honra ou ceder um empate que premiaria o menino com o primeiro lugar na categoria sub12. Eu de brancas, entramos na Defesa Prussiana (Defesa dos Dois Cavalos) para o terror dos principiantes: A Variante Clássica (que pode entrar no Ataque Fegatello) presionando o ponto f7 com Cg5. "Se ele aguentar, tá aprovado como jogador de xadrez" pensei. Não só aguentou, como me fez passar um sufoco!

Então, vale aqui, o registro da partida em sua integra: João Carlos da Costa x Alberto Tonhati Bonvini. II Aberto de Batatais em 18 de dezembro de 2011. 6ª rodada: 1-e4 e5, 2-Cf3 Cc6, 3-Bc4 Cf6, 4-Cg5 d5, 5-exd5 Ca5, 6-Bb5+ c6, 7-dxc6 bxc6, 8-Be2 h6, 9-Cf3 e4, 10-Ce5 Bd6, 11-f4 (aqui termina o estudo do menino que estava preparado só para 11-d4). 11-... exf e.p., 12-Cxf3  O-O, 13-d4 Te8, 14-O-O Dc7, 15-c3 Bg4, 16-Cbd2 Cd5, 17-Cc4 Bxf3, 18-Txf3 Bxh2+, 19-Rh1 Cxc4, 20-Bxc4 Te7, 21-Bd2 Bd6, 22-Db3? (pra ver se ele iria jogar Tb8. Jogou!), 23-Dc2 Cf6, 24-Taf1 (seguindo os conceitos de desenvolvimento e ativação de peças pois 24-Txf6 que a princípio imaginava ser o suficiente para definir a partida, não serviria pois o rei escaparia por f8). A resposta 24-...Te4 me obrigou a uma drástica providência: 25-Bxf7+? imaginando que venceria a partida agora. Mas, o eficiente 25-... Dxf7 me provou o contrário! Seguiu-se 26-Dxe4 Cxe4, 27-Txf7 Cg3+!, 28-Rg1 Cxf1, 29-Txf1 Txb2, 30-Td1 Txa2, 31-Rf1 a5, 32-c4 após o que, ele quebra o gelo da disputa me propondo empate! Com um peão a menos, estava me sentindo perdido na posição! Mesmo assim, relutei um pouco mas, acabei cedendo a proposta e ninguém estava acreditando na autencidade do resultado. O Tiago Martins de Aguiar, irmão da Marina (bicampeã mineira aos 12 anos de idade), soltou aquele "duvido!".

 Convoquei-o para analisarmos a partida com o Alberto onde ele se convenceu, pois o garotinho estava ensinando o professor! Qual outra arte propicia um momento como este? Chegando enfim, a um final rei e torre contra rei, torre e peão, o menino sem necessidade alguma, sacrifica a torre para promover o peão a dama. Perguntei incrédulo: "Você consegue ganhar este final?" "- Claro, já estudei isto!"

Apesar da minha experiência, vi que fui superado pelo menino de 8 anos. Se eu tentasse, talvez não atingiria o grau de perfeição que ele de fato, atingiu.

Partida para visualização


Gostaríamos aqui de agradecer a humildade do Prof. João Carlos e dizer que foi de muito incentivo não só ao Alberto e família, mas a todos nós que participamos do dia a dia dele e da sua preparação antes e durante os campeonatos. O amigo, precisava ver a cara de alegria e entusiasmo da família ao ler o texto, uma cena que não tem preço. Um agradecimento também especial ao Gersinho por ter cedido a reportagem para postagem.
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