Home » » Seleção de jogadas possíveis

Seleção de jogadas possíveis

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 18 de agosto de 2011 | 07:55

No Clube Central em Moscou, havia um confortável palco com uma bela vista sobre a sala de jogos. Um dia, durante uma rodada do Campeonato Soviético, um grupo de Grandes Mestres, que já haviam terminado suas partidas, estava reunidos ali, jogando entre si, mas não estavam muito entusiasmados. Alguém sugeriu que pegassem algo para anotar e tentassem adivinhar quais os lances que faria Kopylov em sua partida. Gostaram da ideia e cada um dos grandes mestres ali presentes sugeriu uma jogada e contribuíram para a 'brincadeira'. O que acertasse a jogada feita continuava na banca, quem errasse saia até começar de novo. Não era fácil de acertar, mas mesmo assim por algum tempo ninguém saiu. Finalmente a sorte sorriu, creio que a Bronstein e foi o único a acertar. É muito interessante, para refletirmos. Mesmo em um jogo de lógica como é o xadrez, os maiores jogadores foram incapazes de dizer qual seria a seguinte jogada de um mestre que participava do Campeonato Soviético. Kotov assegura que isso realmente ocorreu.

É certo que tais casos de equivoco no grupo são raros. Geralmente, um mestre pode prognosticar as jogadas de outros, ainda que nem todos os mestres pensem da mesma forma. Por isso o xadrez é um jogo tão amado. É cheio de inúmeras possibilidades, de lindos saltos de imaginação, de perspectivas de investigação e invenção. Por isso é conhecido como “jogo arte”.

Que faz então um jogador de xadrez para decidir qual movimento tem que realizar em uma posição específica? Certamente não é uma resposta simples, pois cada um decide de uma maneira.

Levando em conta as palavras do já falecido mestre Vitaly Chekhover, que dizia com muita sinceridade que quando começava a analisar, era para decidir que peças ele poderia sacrificar. Se não podia sacrificar sua dama ou sua torre, continuava pensando e somente quando não encontrava nenhum caminho útil começava a examinar jogadas tranquilas.

Descrevi circunstâncias excepcionais, possivelmente excentricidades do xadrez, mas o fato é que Petrosian pensava diferente de Tal quando analisava qual a melhor jogada. A primeira coisa que fazia Petrosian era comprovar se suas peças estavam se defendendo e logo via se tinha alguma oportunidade de sacrifício. Tal, sempre estudava primeiro as jogadas de sacrifício, provavelmente sem haver avaliado todos os riscos. É a liberdade que o enxadrista tem para criar e a expressão de suas individualidades que dá o direito de dizermos que o xadrez é uma arte.

A busca da melhor jogada é um processo de criação, e exige algo mais que conhecer estratégia e tática, mais que experiência e conhecimento de métodos pré-estabelecidos. É nesse processo que o jogador mostra suas melhores qualidades e capacidades de pensamento, seu labor criativo, seu talento natural.

Vamos a exemplos práticos
Um grande mestre está obrigado a examinar grande número de jogadas possíveis que existem em uma dada posição. Uma que não encontre pode muito bem ser a que necessitava realmente, pois poderia ser a jogada que ganhasse a partida ou que conseguisse empatar em situações piores.

A posição a seguir, que se apresentou na partida de Ragozin - Bolelavsky (1953). O preto havia sacrificado uma peça por peão, mas tinha muitas ameaças. O plano do sacrifício se baseou em alguns fatores especiais da posição. A dama do branco estava fora de jogo e provavelmente não poderia participar da ajuda na defesa de seu rei. Ao mesmo tempo o rei foi tirado de sua fortaleza e tem que enfrentar desagradáveis ameaças.


Ragozin provavelmente gastou muito tempo tentando encontrar uma jogada ou plano salvador nesta difícil posição. Há para as brancas muitas tentativas de jogadas, mas suas análises demonstram que não há nada satisfatório.
  • 24- Bd2 Cd3+ 25- Rf1 Bxd4 26- cxd4 Df6+ 27- Rg1 Df2+ 28- Rh1 Ce8 ou com 27-…, Dxd4+ dando um mate de Philidor.
  • 24-Db4 Dxg5 25-Dxb6 De3+ 26-Rf1 Cd3 e não há defesa para as ameaças de mate em f2 e e1.
  • 24-Cf3 Ce4+ 25- Re1! (25-Rf1 Dxg3 com um belíssimo arremate) De6 26-Cxe4 h6! Se 27- Bxh6 Dxh6 28- Txd5 Dc1+ 29- Re2 Txe4+ 30-Rd3 Db1+ 31- Rd2 Be3+ 32- Re2 Bf4+ e caso 27- Da4 Dxe4+ 28-Dxe4 dxe4 29- Cd4 hxg5 com uma vitória fácil no final.
  • 24-h4 h6 25- Bc1 Df6+ Rg1 Dxh4 o preto ganha um segundo peão pela peça sacrificada e continua com muito ataque, exemplo:
    • 27-Cgf5 Te1+ 28- Txe1 Dxe1+ 29- Rh2 Dxc1 e acabou.
    • 27-Cdf5 Cd3+ 28- Rf1 Dh2 29-Be3 Bxe3 30- Cxe3 Txe3
    • 27-Ce2 Txe2 28-Cxe2 Cd3+ 29-Cd4 Df2+ 30-Rh1 Ce1 (31-Txe1 Dxe1+ 32- Rh2 Bc7+)31-Td2 Df1+ 32- Rh2 Bc7+ 33-g3 (33-Rh3 Dh1+ 34- Rg4 g6 com mate em h5) Be5 34- Te2 Bxd4 35- Txe1 Bg1+ 36-Rh1 Dxe1
    • 27-Cf1 Dg4 28-Td2 (28-b4 Dxd1 29-bxc5 Te1) Te1 29-b4 Ce4 30-Td3 De2 31-Tf3 Cg3 ganhando
Ragozin deve ter analisado cinco jogadas e muitas continuações possíveis a 5ª linha é 24- Bc1 como seguiu na partida, e chegou a conclusão que sua posição estava perdida. Entregue ao inevitável, começou a buscar a forma de apresentar maiores problemas e resistência ao seu adversário. Pensou que a melhor maneira de resistir seria com 24-Bc1. No entanto, Bolelavsky rompeu a defesa das brancas como veremos em seguida. A decisão tomada por Ragozin neste momento lhe custou a partida. Ao analisar, Ragozin supôs que haviam apenas cinco possibilidades de lance, deixando passar que na realidade haviam seis. A 6ª poderia ter salvado a partida e quem sabe se tivesse usado o relógio por mais poucos minutos provavelmente teria encontrado. Por outro lado a lógica ditada pela posição exigia que visse essa jogada.

Qual é o principal problema com que o branco tem de lutar contra? O maior de todos é o distanciamento da dama do principal lado da luta, a ala do rei. Outro fator é que toda a energia das peças pretas estarem apontando para essa direção.

A difícil jogada 24-b4! Era a 6ª jogada possível, e em efeito a melhor que salvaria a partida. O preto não teria outra oportunidade que tentar o empate.

Se 24-...,Ce6 25-Be3 f5 26- Cdxf5 Df4+ 27-Re2 ou 24-..., Ce4+ 25- Cxe4 Dxe4 26- Dc1! E a dama branca volta ao jogo no momento preciso.
Contra 24-b4! Bolelavsky teria que refletir na posição por um bom tempo e reconhecer que a melhor linha de jogo seria o empate por xeque-perpétuo por 24-..., Dxg5 25-bxc5 De3+ 26- Rf1 Df4+ 27-Rg1 De3+ perpétuo.

Na partida seguiu 24- Bc1? Df6+ 25-Rg1 Aqui o branco se equivoca mais uma vez ao buscar a jogada mais forte elegendo a pior. Com 25-Cf3 só se pode chegar a vitória das pretas encontrando com cada vez mais dificuldade a jogada correta. Mas, pode algum jogador estar sempre 100% seguro de encontrar os melhores lances?

Com 25- Cf3 a jogada ganhadora seria Dg6 ameaçando 26-...,Ce4+ 27-Rf1  Dxg3 novamente.
Tem muitas variantes a partir de 25-...Dg6 e em todas elas as pretas devem vencer, mas para isso precisaria primeiro encontrar a nada fácil Dg6!
Voltando a linha principal 25- Rg1 Cd3! 26-h3 Te1+ 27-Rh2 Txd1 Da4 Te1 Bd2 Cf5 Db4 Te8 e o branco abandonou.

Paremos para pensar, como um jogador como Ragozin, que era capaz de pensar nas mais surpreendentes e engenhosas jogadas, foi incapaz nesta ocasião de incluir todas as possibilidades em suas análises?  Qual foi o resultado? Perdeu uma posição empatada!

Por isso, infelizmente é ruim considerar apenas um pequeno número de jogadas, é mal também examinar um número muito grande (fator tempo) e por também ficar cansado e em certo momento comecará a não ver as melhores continuações. É fato que em alguns momentos da partida podemos fazer análises superficiais, mas não deixar isso como regra em nosso jogo, pois se fazemos isso sempre nosso labor analítico pode cair e nosso nível enxadrístico também.

Há algo que torna esse trabalho mais fácil. Uma vez que um grande mestre decide-se examinar as possibilidades em uma posição, então a seguinte jogada que ele faça provavelmente será mais fácil, pois ele tem muitos lances preparados (sobras de sua primeira análise) em sua mente da primeira vez que buscou encontrar os lances corretos.

Mas tal entendimento pode levar a outro erro na maneira de pensar dos jogadores. Uma vez que terminaram uma análise, supõe que tudo que viram em sua mente está perfeito, correto e consideram desnecessário repassar de novo. Eles analisam por partes, analisando profundamente somente cinco ou seis jogadas e suas ramificações que geram um grande número de sequências. Como demonstra a experiência e a investigação de grandes jogadores este método é um erro.

Mostro a seguir um exemplo concreto disso. É bastante difícil ter acesso a esse tipo de fundamento porque os grandes jogadores não gostam de expor suas fraquezas nesse respeito e não escrevem muito sobre seu processo de analisar as posições.

Imagine uma situação na qual um Grande Mestre em uma fase da partida tenha gasto 30 minutos analisando “corretamente” todas as possibilidades da posição. Ele faz sua jogada, seu oponente contesta com um lance que ele também havia considerado como melhor. E agora? Confia o GM em suas análises anteriores e contesta rapidamente com o que já havia considerado, ou passa mais um tempo analisando para repassar com mais clareza suas análises já feitas um lance antes?

Que tal um exemplo real?
Botvinnik- Smyslov (Groninga, 1946) Depois da jogada 17 das pretas. É um momento crucial da partida e sobre ele Botvinnik disse:
“Aqui cheguei a conclusão de que seguindo a variante que havia analisado poderia entrar em um final ganhador com um peão a mais, e sem preocupar-me de repassar novamente as análises (depois da réplica das pretas)-um implacável lance que não considerei- fiz rapidamente as jogadas que havia estudado antes”.

A partida seguiu
18- Dxg4 Cxg4 19- Bxb6 axb6 20-dxc6
E Botvinnik continua: “Como o leitor observará na seguinte anotação esta jogada deixa escapar uma pequena parte da vantagem das brancas. O correto era 20- e5 e se c5 então 21-a4 seguido de 22-b3 e 23-Cb5 e em suma, o branco teria um peão a mais e melhor jogo.”
20-..., bxc6 21- e5”Eu havia analisado cuidadosamente esta posição e quando fiz minha jogada 18 me parecia que era muito vantajosa para o branco já que:
  1. o bispo preto é passivo
  2. o preto tem que perder tempo para por seu cavalo em jogo
  3. o peão de c não tem defesa.
Neste momento, esperava que jogasse meu oponente, para meu assombro me adverti que depois de 21-..., Tac8 22-Bh3 h5 23-f3 as pretas tinham Ce3! Mantendo igualdade material. Portanto, se o branco queria ganhar material, teria que tentar trocar as torres, mas depois de 21-...,Tac8 22- Txd8 Txd8 23- Bxc6 o preto se apoderaria da coluna de dama e teria contrajogo. Parecia que após 21-..., Tac8 o branco conseguiria entrar em um final melhor com 22-Bh3 h5 23-f3 Ce3 24- Bxc8 Cxd1 25-Txd1 Txc8 26-Td7. No entanto, Smyslov estava desmoralizado pela rapidez com que eu havia feito minhas jogadas, produzindo todas essas trocas que ele não havia considerado em suas análises e aceitou perder um peão.”(Botvinnik)
Na partida seguiu então 21-...,Ch6 22-Bxc6 Txd1+ 23-Txd1 Tc8 24-Cd5! E o branco ganhou em seguida.

O que aprendemos desse curioso exemplo? A primeira coisa a concluir tiradas das notas de Botvinnik é que depois de cada jogada devemos repassar as variantes que estudamos antes (logicamente que não com a mesma concentração e minucia, já que está familiarizado com a nova posição). Também vemos que Smyslov se equivocou ao confiar demasiadamente que seu oponente já havia analisado tudo e com grande exatidão. Dizendo a si mesmo: "se Botvinnik joga tão rápido agora é que já viu tudo, e eu tenho uma posição ruim!” O fato de confiar dessa forma no oponente é algo a ser bem considerado em outro assunto.

Fonte: Kotov, Alexander. Piense como un gran maestro, 1982 3ª edição, Club de Ajedrez.p.39-46


©Conteúdo protegido por direitos autorais. Texto produzido pela equipe Xadrez Batatais. Iformações coletadas a partir das fontes acima citadas. Todos os direitos reservados.
Plágio é crime. Se deseja reproduzir essa postagem em seu blog/site, por favor entre em contato antes através do e-mail contato@xadrezbatatais.com

Todos os exercícios e materiais didáticos estão disponíveis gratuitamente em nosso site. No entanto, para manter nosso site, bem como desenvolver tais materiais, utilizamos diversos recursos próprios e financeiros. Assim, se apreciar nossos materiais e quiser nos ajudar, aceitamos doações de qualquer quantia para continuarmos nosso trabalho e desenvolver ainda mais materiais.



Compartilhe este artigo :

+ comentários + 1 comentários

Postar um comentário