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Porque se produzem os erros?

Postado Por Vanessa Benko em 20 de agosto de 2011 | 15:30

Desde o ponto de vista técnico, há dois tipos principais de erros: os estratégicos e os táticos. O erro estratégico se origina na execução do plano estratégico ou em sua concepção. Neste último caso, o erro só será visível a longo prazo, com o fracasso do plano. Em outros casos, o erro será menos perceptível e sua influência no jogo pode ter pouca importância. Mais importante é o erro tático, posto que se trata de uma jogada concreta que pode ser refutada de forma direta o que estraga de forma definitiva uma posição.

Também podemos citar os erros de tipo psicológico, que podem aparecer em qualquer momento da partida. Alguns destes erros se baseiam na sensação de segurança que proporciona, por exemplo, a vantagem na abertura. O jogador está completamente convencido de que conseguiu uma vantagem notável e que o desenlace (positivo) da partida se produzirá por si só. Isto faz com que sua concentração desapareça e o adversário que tem em frente pode tirar partido dessa debilidade. Em outros casos, a sensação de superioridade ou de inferioridade com relação ao oponente da partida, condiciona de forma negativa o rendimento do jogador durante uma partida. Detenhamo-nos agora em alguns exemplos:


A posição que vemos no diagrama acima se chegou na partida Fine- Yudovich (Moscou, 1937)

Depois de 1- d4 d5 2- c4 e6 3- Cc3 Cf6 4-Cf3 c5 5-Bg5 cxd4 6- Cxd4 e5 7- Cdb5 a6!
A sétima jogada preta era considerada inferior, posto que, com 8- Cxd5 axb5 9-Cxf6+ gxf6 10-Dxd8+ Rxd8 11- Bxf6+ as brancas conseguiam vantagem decisiva. Com esta continuação, Fine havia ganhado várias partidas, o que lhe fez jogar mecanicamente, sem questionar sequer que seu rival pudesse ter descoberto algo especial na posição. Assim, pois, jogou confiante a linha mencionada. 8- Cxd5 axb5 9- Cxf6+
Mas neste momento veio a grande surpresa ao ver sobre o tabuleiro a réplica de seu rival 9-...,Dxf6!


Uma jogada relativamente simples, que especula com o mal desenvolvimento das brancas em seu flanco do rei. 10- Bxf6 Bb4+ 11- Dd2 Bxd2+ 12- Rxd2 gxf6 13- cxb5 Be6 As pretas ganharam peça e as brancas tiveram que abandonar. Este foi um caso de confiança cega na teoria e um exemplo de novidade teórica da época. Sempre temos que analisar e desconfiar das possibilidades ocultas de uma posição, sobretudo se já a jogamos antes e nosso adversário entra voluntariamente nela.

Um erro também derivado da confiança na própria posição, mas com um matiz adicional de subestimar as possibilidades do adversário, é também um perigo psicológico, algo mais frequente em uns jogadores que em outros. O caso refletido no diagrama a seguir constitue-se como um bom exemplo deste tipo de erro:


Como podemos ver, as brancas ainda que com igualdade material, dispõe de vantagem posicional, que pode tentar concretizar de duas formas, uma das quais conduz a ganhar um peão e a outra, a ocupar a sétima fila com a torre. Vejamos:
a)1- Txe8 Txe8 2-Txe8+ Dxe8 3- De3 Dxe3(obrigada posto que está atacado o bispo de b4)4-Bxe3 e mais uma vez que o bispo preto jogue segue 5-Bxa7 ganhando um peão.
b) 1-De2 (para aumentar o dominio da coluna e)1-..., Txe6 2- Dxe6 Dxe6 3- Txe6 Cd8 4- Te2 Ba5 5- Te7! (jogada que antes não era possivel, porque o bispo preto atacava o ponto e7), com clara vantagem. No entanto, e ainda que captaram a ideia correta incorreram em um descuido tático, que mudaria por completo o sentido do jogo:
Vamos ao lance da partida original 1- De3? d4! Uma jogada surpreendente, que dá uma reviravolta total na posição. 2- De2 O peão não pode ser tomado, pois se 2- Dxd4, segue a réplica ganhadora 2...,Txe6! 2-...,d3! 3- De3 As brancas voltam com sua dama a mesma casa, pensando que o avanço do peão foi apenas fogo de palha, mas 3-...,d2! E as brancas se rendem. Um descuido pequeno que leva ao desastre. Fuhrmann- Goehle (Berlim, 1865).

Uma concepção correta e inclusive brilhante pode frustrar-se pela descuidada execução de uma manobra combinativa.

Kasparov, Gary. La pasion del ajedrez p. 245-248


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+ comentários + 2 comentários

16 de fevereiro de 2012 22:18

Já conhecia este argumento pelo "La pasion del ajedrez". Foi bom relembrar em português. O aspecto tático sempre "estraga" um plano bem concebido. Costumo dizer que numa partida de xadrez temos vários adversários. O oponente, o relógio, e os seus próprios erros de combinações equivocadas. Muitas vezes o adversário nem faz nada. Apenas espera e dá o bote.

16 de fevereiro de 2012 23:36

As vezes a ideia é boa, sua execução inteligente e em um leve cochilo colocamos tudo a perder, muitos fortes jogadores escolhem linhas simples, equilibradas para enfrentar jogadores mais fracos pois sabem que em determinado momento podem errar em uma posição simples, e isso ocorre. Mas outras vezes, na "obrigação" de vencer os jogadores mais fortes erram por forçar demais, rs! Obrigado pelo comentário!

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