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Lances psicológicos Parte II

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 25 de agosto de 2011 | 08:37

Em geral os livros de xadrez dividem em dois grupos distintos os estilos de jogo, são eles o combinativo e posicional. O primeiro prefere se envolver em posições taticamente difíceis e fica satisfeito quando se encontra em posições que exigem muitos cálculos e de encontrar os lances únicos, de andar na corda bamba. O jogador posicional prefere lutar por conseguir pequenas vantagens, e se esforça sistematicamente por ampliá-la lance a lance e conforme acumula as vantagens de certa forma vai amarrando seu adversário até o término da partida, e assim procura evitar variantes pouco claras e posições de alto grau de complexidade cujo resultado não possa ser claramente avaliado. Um grande mestre tende a tecer suas partidas evidentemente por suas predileções, em alguns casos ele pode até entrar em outro terreno, quando não há melhor escolha, mas em geral seu norte o leva ao campo em que este é melhor preparado e por esse viés traça seus planos estratégicos, por exemplo, em uma partida de brancas dos jogadores Smyslov e Petrosian advindas do Gambito da Dama recusado depois de 1-d4 d5 2- c4 e6 3-Cc3 Cf6 4-Bg5 Be7 5- e3 0-0 6-Cf3 Cbd7 7-Dc2 c5 no qual as brancas tem duas possibilidades de planos, quase que com certeza estes dois prefeririam a continuação 8-cxd5, ao passo que Bronstein e Geller se decidiriam, com maior probabilidade por 8-0-0-0.
Conhecer exatamente o estilo de um oponente, é uma das partes mais importantes quando fazemos nossa preparação para match e torneios individuais ou por equipes. Um belo exemplo da importância de traçar um perfil psicológico está no famoso match entre Alekhine e Capablanca em 1927. Alekhine submeteu o jogo de seu Capablanca a uma minuciosa análise chegando a belíssimas conclusões trazidas por publicação do livro do torneio de Nova Iorque de 1927. No match Alekhine moldou seu jogo às descobertas efetuadas. Capablanca, por pouco antes ter vencido a Alekhine em outro torneio não considerou necessário estudar em pormenor o estilo de seu oponente. Tal fato e atitude negligente demonstrou papel importante na derrota que sofreu no duelo valendo título mundial entre esses dois gigantes da história do xadrez.
Há também certos elementos psicológicos que não estão diretamente ligados com o estilo do oponente ou com uma avaliação da posição no tabuleiro. No qual se enquadra as ciladas, implementadas com a intenção de apanhar um adversário confiante em uma dada continuação, jogando-lhe a isca certa, seja por perspectivas de vantagem material ou posicional. Um bom exemplo se dá na partida entre Nimzowitsch e Leonardt em San Sebastian no ano de 1911, em que foi alcançada a posição a seguir, após 26 lances.

Com seus últimos lances o condutor das pretas havia tentado repetidamente forçar seu adversário a jogar c4, de modo a colocar sua dama em d4. Nimzovitsch, percebendo a intenção das brancas, procurou armar-lhe uma elegante cilada. A partida continuou 27-T1g2! Dd6 28- Dc1 Dd4?, mas depois de 29-Cd5! Ficou com a dama cercada e indefesa contra a ameaça de 30-c3. As pretas ainda tentaram 29-...,Txd5 30-c3! Dxd3 31- exd5 Dxc4 32-dxe6 Dxe6 Dc2 e as brancas venceram em alguns lances mais.
Este exemplo foi de uma cilada tática, mas uma cilada estratégica também é possível. Eis um caso de disfarce do plano estratégico verdadeiro, induzindo o oponente a tomar medidas que, na realidade, auxiliam a execução do plano; a posição do diagrama a seguir, que se deu em uma partida jogada entre Thelen e Treybal, Praga, 1927.

O plano real das brancas era ocupar a coluna “c”, sem permitir a seu adversário a oportunidade de efetuar as trocas generalizadas. Sabendo que as pretas temiam o ataque ao rei, mobilizou suas forças como que para lançar ataque naquela ala. Suas análises e cálculo foram inteligentes e certeiros, o condutor das pretas removeu a torre da coluna “c”mediante Tcf7 para se prevenir do ataque ficando as brancas em condição de jogar Tc1 e executar suas verdadeiras intenções, o que lhes garantiu a vitória após cerca de vinte lances.
Vamos agora tratar dos problemas psicológicos relacionados a falta de tempo no relógio por um dos jogadores. Qual é o procedimento apropriado a adotar quando dispomos de suficiente tempo para reflexão e nosso oponente estiver apurado pelo relógio? Um engano frequente, principalmente de enxadristas inexperientes é jogar rapidamente nesses casos, o que lhes condiciona a errar mais, mesmo em posições favoráveis o caminho acertado é criar difíceis problemas táticos e estratégicos ao adversário. Não devemos fazer jogadas sem plano, sem avaliar bem, cada lance deve ser dirigido para o reforço da própria posição, pois um plano de luta definido e bem implantado exerce grande pressão psicológica em um enxadrista em apuros de tempo, se jogamos preocupados apenas em deixá-lo mais mal no tempo estamos também suscetíveis ao erro, sendo que não estamos mal no tempo. Já em posições em que possuímos uma vantagem material ou posicional clara não devemos nos ater a escassez de tempo do oponente para tentar derrubar a seta, devemos continuar procedendo em prol de ganhar mais vantagem na partida e convertê-la em ponto. É errado jogar apenas baseando nossos lances no apuro de tempo do adversário em tais casos, na prática o próprio Pachman pode verificar através da experiência pessoal, em uma partida que lhe custou  a mais alta colocação no Torneio de Candidatos de 1956. Nesta partida que foi jogada cerca do final do Interzonal de Goteborg, surgiu a posição representada a seguir.

Pachman afirma que havia visto aqui, claramente, que seu cavalo era superior ao bispo mau e que isso lhe conferia uma vantagem definitiva, e o caminho certo para utilizá-la era:
  1. Bloquear a ala do rei por g5
  2. Remover a dama para d6 e transferir do rei b8
  3. Ocupar a coluna “c” aberta com a torre e forçar a troca de uma ou de ambas as peças maiores.
Seguindo esse plano, ele deveria alcançar um final ganho, mas infelizmente, principiou a prestar atenção ao relógio, ao pouco tempo do adversário e observou que aquele dispunha somente de alguns segundos para efetuar seus próximos três movimentos. Como consequência, na tentativa de surpreendê-lo a fim de perturbar sua linha de análises. Jogou ao invés do plano original 37-..., a5? 38- Bc4 a4? 39-a3 Db1?? 40-Dc3! E agora o oponente ficara livre do apuro de tempo e a dama, virtualmente presa. Como 40-...,Cb3 41-Bxb3 seguido por 42-Tb2 é sem esperanças, daí tentou 40-...,Dd1 41- Tc1 Dd4 42- Dxd4 exd4 43- Td1 abandonando então.
E como proceder contra o pensamento de que enquanto eu calculo em meu tempo, o adversário também pode usá-lo para nortear suas análises. É uma afirmação verdadeira, mas a questão é que ele está analisando em seu tempo, mas sob pressão psicológica, em outras palavras, você produz idéias em um tempo x (maior) e ele tenta derrubar suas ideias utilizando um tempo y (menor). Que conclusão extrair desse exemplo terrível de Pachman? Simplesmente, que não devemos superestimar a importância do apuro de tempo em uma partida de xadrez. É sempre melhor que nos apoiemos em um plano  profundo e estrategicamente baseado: particularmente em posições favoráveis, é ignorância trilhar caminhos complicados para você e seu adversário na tentativa de surpreender, pois podemos ser surpreendidos e nem justificar nossas falhas com o pretexto de escassez de tempo do adversário.

Artigo baseado na obra Estratégia Moderna no Xadrez, de Ludec Pachman

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