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Lances psicológicos Parte I

Postado Por Paulo Henrique de Faria em 24 de agosto de 2011 | 08:31

Ao fazer uma análise dos elementos individuais da estratégia, podemos entender o jogo de xadrez como um processo impessoal que envolve apenas as trinta e duas peças e sessenta e quatro casas. Isto é, claramente, uma representação muito simplista do que é realmente o xadrez e de todas as suas peculiaridades. Em uma partida de xadrez ocorre uma luta entre dois contendores, levada a efeito sob certas condições concretas, na qual as pessoas nunca estão isentas nas falhas e são, inevitavelmente, em maior ou menor grau, influenciadas por questões  particulares, e com características diferentes. Todos esses fatores somados refletem na produção enxadrística de cada indivíduo.

Cada jogador, sendo mestre graduado ou jogador de nível baixo, insere em suas partidas certos elementos de seu estilo pessoal de jogo. Este estilo não é apenas a soma de seus conhecimentos enxadrísticos, observações, análises e opiniões sobre o jogo; é, em ampla extensão, a expressão de seu caráter. Se estudarmos as partidas de alguém que não conhecemos particularmente, poderemos descobrir muitas traços de seu caráter e personalidade, apenas por suas partidas. Por outro lado, quando conhecemos bem alguém, somos capazes, com certo grau de certeza, de indicar o estilo de jogo empregado por ele em suas partidas de xadrez. Por exemplo, um homem precavido e preocupado com a vida não entrará por opção em uma partida arriscada, já alguém de natureza aventureira, por sua vez, conduzirá sua partida perigosamente, frequentemente sem uma avaliação apropriada das possibilidades à sua disposição e ao oponente. Podemos frisar assim, que o mais otimista dos jogadores tende a superestimar sua posição, ao passo que o pessimista vê riscos, perigos e dificuldades em cada momento até mesmo onde não tem muitas vezes. O estilo de cada um serve como bom reflexo do caráter do enxadrista.

Podemos entender como problema a influência exercida por fatores externos no curso de uma partida. Um exemplo interessante citado por Pachman é que se um jogador, na última rodada, precisar apenas de um empate para ser campeão, desenvolverá sua partida de maneira diferente, ou seja com um estilo mais cauteloso, da que faria se tivesse que vencer a qualquer custo. Outro ponto é a escassez de tempo no relógio que se traduz como fator externo importante, além das como as condições individuais sob as quais é jogada a partida (problemas familiares, financeiros, cobrança do país de origem). Não podemos nos esquecer também do estado de saúde do jogador.  Uma simples gripe, alergia, dor de cabeça, mal-estar físico podem afetar de forma intensa o nível de jogo e o resultado da partida. Podemos entender então que uma boa preparação física e psicológica pensando principalmente nos momentos mais importantes da carreira de um enxadrista podem fazer muito a diferença no resultado da partida.

Segue uma pergunta importante: em que se conecta a escolha de um plano estratégico, junto com o estilo individual de jogo e os  fatores externos? Pachman nos responde que o antigo campeão mundial Dr. E. Lasker foi o primeiro a externar o profundo principio de que, em certas posições, é impossível; falar-se de a melhor jogada. Que existem muitas possibilidades de bons lances e destes, um poderá ser o melhor contra um oponente particular, sob condições particulares. Em outras palavras, que a escolha do plano e jogadas deve ser determinado, pelo estilo do oponente e pelas condições externas prevalecentes e esse tipo de avaliação é feita antes da partida e durante, de acordo com as condições que existiam de uma análise anterior e das que surgem no decorrer de uma rodada.

O exemplo apresenta uma posição (campeonato mundial, match entre Lasker e Tarrasch em 1908)

No exemplo as pretas, estão restringidas em espaço, e devem contar com um ataque contra seu rei. Um plano passivo de defesa seria 1-...De6 2- Cf5 c5 seguido de Bf8. Na partida porém, Lasker escolheu um caminho diferente, objetivamente muito mais fraco. Por que motivos?
Tarrasch era um especialista em tirar proveito de vantagem em espaço, sem dar a seu oponente quaisquer oportunidades. Lasker, por saber disso de antemão (por uma análise do estilo do adversário anterior a partida), optou por não se limitar à defesa passiva contra Tarrasch em sua posição restringida, optando por uma continuação arriscada que lhe daria contrajogo em troca de um peão a menos. Como o prosseguimento da partida provou, Lasker julgou bem seu adversário. A partida continuou 1-...,Cg4?! 2-Bxg7! Cxf2!; Agora as brancas tem duas possibilidades; ganhar um peão com 3- Rxf2 Rxg7 Dd4+ seguido de Dxa7 ou atacar com 3- Dd4. Algumas análises feitas após a partida demonstraram que a pressão das brancas após 3-Dd4 Cg4 4- Cf5 é bem difícil de defender. Isso quer dizer que o lance do texto de Lasker 1-...Cg4 foi um engano?  A resposta é Não, pois ele havia considerado a posição e seus aspectos psicológicos, levando em conta que Tarrasch preferiria selecionar continuações claras e seguras, a fim de não entrar em complicações que não pudessem ser calculadas com exatidão. Tarrasch permaneceu fiel a seu estilo e prosseguiu com 3-Rxf2 Rxg7 4-Cf5+ Rh8 5- Dd4+ f6 6-Dxa7 Bf8 7-Dd4 Te5!, o que permitiu que Lasker obtivesse contrajogo, na forma de pressão a debilidade do peão isolado. E continou as pretas jogando de forma enérgica e Lasker acabou vencendo a partida por aproveitar se de pequenos erros por parte de seu oponente.
Em suma, muitas vezes deparamos com a possibilidade de escolha entre dois ou mais planos de caráter e valores praticamente iguais, mas que conduzem a posições de partidas completamente diferentes e nesse momento devemos avaliar o que é melhor para nosso estilo e pior para o do adversário, além de tentar por conhecer o estilo do adversário antecipar-se aos planos que ele considerará como mais fortes.
 A partir da posição a seguir, retirada do Gambito da Dama recusado depois de 1-d4 d5 2- c4 e6 3-Cc3 Cf6 4-Bg5 Be7 5- e3 0-0 6-Cf3 Cbd7 7-Dc2 c5 as brancas tem duas possibilidades.

Inicialmente podem jogar 8-cxd5 Cxd5 9-Bxe7 Dxe7 10-Cxd5 exd5 11-Bd3 g6 12-dxc5 isolar o peão de dama do adversário para, depois de trocas de peças explorar essa debilidade. Outra alternativa é jogar: 8-0-0-0 h6 (8-...,Da5 9-Rb1)9- h4! Da5 10-g4, no qual surge uma posição aguda de roques opostos em que ambos os oponentes terão expectativa de ataques contra o rei inimigo. É difícil falar qual seja a continuação mais forte e correta, assim a escolha deve sair das características de jogo de cada um e se fundamentar nos fatores psicológicos.

Outro fator psicológico de grande importância é a escolha da abertura a ser empregada nas partidas (por isso é interessante ter um repertório variado, para surpreender o adversário). Devemos preferir aquelas aberturas que tanto quanto possível, encaixe em nosso próprio estilo de jogo, e que não se encaixe no estilo do adversario. Muitas vezes é interessante até mesmo chegar ao extremo de escolher um sistema mais fraco ou que equilibre logo a posição, a fim de proporcionar ao oponente algumas posições que não agradem seu estilo.

Um belo exemplo da importância dessa preocupação psicológica com o estilo do adversário, bem como escolha das aberturas podemos encontrar no match pelo título mundial de 2010 entre Topalov e Anand. A estratégia adotada pela equipe de Anand foi baseada em ater-se nas “pequenas ideias” para que surpreendesse Topalov com as escolhas das aberturas utilizadas por Anand, que não estava almejando conquistar uma boa vantagem nas posições e sim características de posições que não agradassem o búlgaro, pois Topalov se sente mais confortável em posições de extremo grau de complexidade e era esse doce que Anand e sua equipe não quiseram lhe dar.

(Veja mais sobre esse match e as ideias concernentes a ele em http://www.chessintranslation.com/2010/08/the-great-anands-little-ideas-part-i/)
Voltando ao exemplo clássico de uma escolha de Lasker em sua partida contra Capablanca no torneio de São Petersburgo em 1914. Três rodadas antes do final do torneio ambos os jogadores estavam com o mesmo número de pontos; Lasker, entretanto, já havia jogado uma partida a mais e portanto teria que vencer este duelo, caso quisesse manter esperanças de ser campeão do torneio. Jogando de brancas, escolheu a variante das trocas na Ruy Lopez (1-e4 e5 2-Cf3 Cc6 3-Bb5 a6 4-Bxc6), até então considerada fraca para as brancas. Ninguém, na ocasião, reconheceu quão profunda era a concepção de de jogo psicológico de Lasker, seguindo comentários como o do Dr. Tarrasch no livro do torneio:
“Porque escolheu a variante das trocas?” “Você deveria jogar agudamente para ganhar, não?”

Lasker respondeu: “Eu não tinha outro recurso porque contra a defesa aplicada por vós contra mim e contra Bernstein, nada se pode fazer.” Tarrasch, entretanto, não percebeu a resposta irônica de Lasker. Não foi o temor à variante de Tarrasch (4- Ba4 Cf6 5-0-0 Cxe4), mas outra razão muito mais profunda que fez com que Lasker decidisse a empregar uma variante de empate em sua partida decisiva. A fim de compreendermos isso, observemos a posição que surge após os lances atualmente jogados: 4- Bxa6 dxc6 5-d4 exd4 6-Dxd4 Dxd4 7-Cxd4 Bd6


O diagrama acima mostra que as brancas dispõem de uma maioria de peões na ala do rei, ao passo que a maioria das pretas na ala da dama está inutilizada pelos peões dobrados. Para tal as brancas devem procurar, naturalmente um final em que possam aproveitar essa vantagem. Como compensação, as pretas tem o par de bispos, mas para poderem utilizar seu par de bispos terão que jogar ativamente e se manterem prontas para o ataque. Lasker, porém, percebeu que Capablanca iria jogar apenas com a intenção de obter um empate que lhe garantisse o título do torneio. Tal disposição está em conflito direto com o caráter da posição que nasce da variante das trocas da Ruy Lopez, o que justifica plenamente o cálculo psicológico de Lasker nesta partida. Capablanca jogou passivamente e acabou perdendo a partida e o torneio.

Ao estudarmos as partidas de torneios, podemos avaliar uma preferência de determinados jogadores por determinados tipos de posições. Alguns procurarão jogar num estilo posicional, mais calmo, outros optarão por situações inusitadas, complicadas e ainda outros tentarão atacar na primeira oportunidade, e um quarto poderá inclinar-se para a defesa. O estilo de jogo de cada um reflete sua preferência pelo esquema estratégico particular que mais lhe agrada, seja por sugestão de um treinador ou por próprias conclusões. Os diferentes estilos de jogo podem mostrar um grau de variação considerável, e fica a certeza de que não há um mestre cujo estilo não seja influenciado em certa medida por suas predileções pessoais, caráter e personalidade.

Artigo baseado na obra Estratégia Moderna no Xadrez de Ludec Pachman

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+ comentários + 3 comentários

4 de janeiro de 2012 21:41

Excelente postagem!!! É a primeira que leio... rs

4 de janeiro de 2012 21:54

Que bom que gostou Charles, continue a conhecer nosso material, e que possa gostar cada vez mais!Abraços!

25 de março de 2014 15:41

otimo

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