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Análise e cálculo da posição

Postado Por Vanessa Benko em 16 de agosto de 2011 | 14:27

Este material foi baseado na versão original em espanhol, La pasión del ajedrez, com intuito de compartilhar com a comunidade enxadrística brasileira parte dessa obra de inestimável valor didático produzida pelo maior campeão mundial de xadrez em todos os tempos Gary Kasparov. Espero que o leitor entenda, aprenda e se interesse mais e mais por nossas publicações.

Análise
Para se fazer um exame estratégico de uma posição devemos levar em conta alguns princípios gerais, através da consideração de fatores concretos, como por exemplo, a situação dos reis (segurança), relação de forças materiais (se há desequilíbrio material), pontos débeis no campo inimigo e no próprio, domínio do centro, existência de peões passados, roques debilitados, etc.

Com a avaliação de tais fatores abrimos caminho ao desenho de um plano, cuja execução é dada pela tática. É dai que podemos entender a estratégia como “a arte do planificação”, e por isso podemos considerar a tática como a arte da análise e do cálculo. Por suposto, ambos os conceitos do xadrez formam um todo e não podem ser considerados independentes, e sim interdependentes.

As análises podem ser entendidas por arte do concreto, apesar de ser criada na mente, pois consiste em distinguir e avaliar todos os elementos que intervém em uma posição, tornando-os reais. Na prática isto significa que em uma posição, sobretudo do meio jogo ao final, deveremos analisar, por exemplo, as vantagens e inconvenientes do plano determinado. Por exemplo, ataque direto ao rei (rocado) contrário. As análises podem partir das seguintes questões:
  • Temos superioridade de forças no setor? 
  • Está o roque inimigo debilitado? 
  • Se não está, é possível debilitá-lo por meio de sacrifícios de material? 
  • Existe alguma combinação? 
  • Se a combinação existe, qual é o cálculo da mesma em todas as suas variantes?
A valorização da posição, é fundamental não só quando se trata da posição que resulta de uma determinada combinação, senão também, antes de iniciá-la, é óbvio que o jogador não pode (não deve) empreender um ataque supostamente ganhador, quando o aconselhável , caso se encontre em situação de inferioridade, seria buscar a forma de conseguir empatar ou igualar a posição, porque o ataque estaria condenado de antemão ao fracasso.


Nesta posição que surgiu na partida Rubinstein – Teichmann (Viena, 1908), depois da jogada 17-...,a6, as brancas empreenderam um ataque direto ao rei contrário.Considerando as perguntas anteriores já haviam respondido afirmativamente a pergunta 1. E considerou as outras respostas:
- Para a pergunta 2 foi não, e sim para a pergunta 3.
- Quando foi considerar a pergunta 4, teve de analisar com pouco mais detalhes e lances, além de ter um conhecimento prévio sobre temas táticos chamados de clássicos, como é o caso do sacrifício de bispo em h7. Agora é o momento em que as brancas decidem levar a cabo uma combinação que debilite ao roque negro e permitir assim a invasão do mesmo.

A combinação que segue, mostra-se como escolha correta na posição, pois caso as brancas optassem por continuações normais de ataque, sem sacrifício material talvez não tivesse o êxito encontrado. Assim, por exemplo, se 18- h6 a resposta é 18...,g6, e se 18-g6 a resposta é 18-..., fxg6 19- hxg6 h6 fechando as vias de invasão em ambos os casos.
18- Bxh7+!
Este é um sacrifício baseado na força das colunas g e h dominadas pelas torres brancas, junto com o avanço destrutivo dos peões e suas capacidades para seguir abrindo linhas, e a eventual entrada da dama em c4, depois da troca do cavalo preto.
18-..., Rxh7
19- g6+!
A continuação mais forte e lógica, para seguir abrindo linhas contra o roque. 19-...,Rg8
Praticamente única, já que se 19-...,fxg6 20-hxg6 Rg8, o domínio da coluna h e o fortíssimo peão apoiado em g6 compensam de sobra a entrega da peça. Mas, além disso, Rubinstein havia replicado a 19-...fxg6 com uma variante todavia mais forte: 20-Cxe4! Dxe4 21-Cg5+ e as brancas ganham rapidamente, tanto se 21-...,Rg8 (22-Dxd4+), como se 21-..., Rh6 (22-Cf7+! Dxf7 23- hxg6++)

20- Cxe4 dxe4
Não 20-..., Dxe4? Por 21- gxf7+ Rxf7 22- Cg5+ ganhando a dama.
21- h6!

A chave da combinação. As brancas alcançaram a posição que haviam vislumbrado ao sacrificar seu bispo na jogada 18 e é provável que não haviam calculado naquele momento todas as variantes até a última consequência, porque nestas posições a intuição do enxadrista desempenha também um papel importante. Voltaremos a esta posição no ponto seguinte.

Cálculo
O cálculo aparece na partida para prever as séries de jogadas forçadas que caracterizam a combinação. A própria palavra cálculo indica o aspecto matemático da operação: as jogadas e as respostas devem ser toda exatas, a fim de que possa ser também as conclusões, antes de entrar em uma combinação.

Refiro-me a combinações, pressupondo que há uma linha de jogo complicada, pois está claro que uma variante que conduza por exemplo ao mate em duas jogadas não requer cálculos especiais, senão um cálculo simples.

Ao efetuar o cálculo concreto das jogadas, há que distinguir perfeitamente cada uma das variantes e chegar a conclusões claras. Se não for assim, terá de voltar a posição inicial, para ver em que momento pode melhorar o cálculo ou detectar eventuais erros.

Voltemos a posição da partida Rubinstein- Teichmann, no ponto em que a havíamos deixado. Como mostra o próximo diagrama as brancas entregam uma segunda peça, o cavalo de f3. No entanto, as torres e os peões das colunas g e h se mostram uma tremenda força de ataque. Fatores como as torres podendo chegar a sétima fila, ou o peão de h6 podendo capturar em g7, ficando protegido, com poderosas ameaças, são ideias para aumentar a pressão por melhorar a atividade das peças. Por outro lado, se as negras capturam o cavalo, a dama branca poderá chegar a h7, ao ficar livre a diagonal b1-h7. Seguramente, um grande mestre do gabarito de Rubinstein sabia já que a partida estava ganha para ele em poucas jogadas, sem necessidade de haver previsto todas as possíveis variantes, chegando até o final em cada uma delas. Agora as brancas ameaçam 22- exf7+ com consequências decisivas. A partida seguiu assim:

21-..., f6
Esta jogada não salva, mas não há nenhuma defesa. Vejamos o cálculo que supostamente teria que haver realizado Rubinstein para assegurar-se disso:
  1. 21-..., exf3 22-gxf7+ Dxf7 (ou 22-...,Rxf7 23- Dxg6 Rg8 24- hxg7) 23- hxg7! Dxg7 24- Dh7+, em ambos os casos com mate inevitável.
  2. 21-...,gxh6 22- gxf7+ Rxf7 23- Txh6 Th8 24- Dxc4+
  3. 21-…,fxg6 22-Ch4! g5 (ou 22-…, Rh7 23-hxg7 Rxg7 24-Cf5+) 23-Cg6 De6 24-h7+ Rf7 25- h8=D Txh8 Cxh8+
  4. 21-…,Tf8 22- hxg7 Rxg7 23- gxf7+ Rf6 24-Th6+
  5. 21-…, Bd5 22-gxf7+ Bxf7 23- hxg7 Bd5 24- Th8+ Rf7 25- g8=D Txg8 26- Th7+
  6. 21-…, Df6 22- gxf7+ Rxf7 23- Txg7+Dxg7 (23-…, Rf8 24- Cg5 23-…, Re6 24- Rxb7 Dxf3 25- Dxc4+, com mate) 24-hxg7 exf3 25-Df5+ Re7 26- g8=D.
Contra 21-…,f5 as brancas seguiriam como na partida, todavia com mais força.
22- hxg7 exf3
Se 22-...,De6 23- Tg8+ Rxg7 24-Th7+ Rg8 25- Tgh1 com ataque irresistível.
23- Th8+ Rxg7
24- Th7+ Rg8

25-Df5! C3
26- Txe7 ... As pretas se renderam
Na prática o jogador que ataca normalmente se conforma em calcular com precisão uma variante que consiga clara vantagem, assegurando-se, sim, de que seu rival não dispõe de uma melhor defesa que nas demais variantes.
O cálculo é fundamental na maioria dos finais, sobretudo em alguns que contém complexidades próprias do meio- jogo.
A posição do diagrama a seguir se produziu na partida Zajarian- Dvoretsky (Riga, 1975), depois da jogada 40 das pretas.


As brancas realizaram sua jogada secreta 41-axb5, assumindo que a resposta das pretas era obrigada 41-..., axb5, cuja continuação pensavam em 42- Ta1!, que ameaçava tanto 43-Dxb5 como 43- Te1. Poderia seguir 42-..., Td3 43- Te1 e3 44- fxe3 e4, e as pretas mantem um peão extra, com bastante jogo ainda. Mas a comprovação obrigada fez as pretas se deterem em uma possibilidade oculta, que analisaram exaustivamente antes de reatar a partida.
41- axb5 e3!?
42- Dxe3
Examinemos as alternativas:
  1. 42- Txa6? Perde rapidamente para 42-..., Dxf2+ (não servia 42-...,exf2+ por 43- Rf1) 43- Dxf2 Td1+ 44-Df1 e2.
  2. 42- fxe3 Db1+ 43-Rh2 Td1 e agora há que descartar 44-Dg4? Por 44-...,Th1+ 45- Rg3 De1+ 46- Rf3 Tf1+ 47- De4 Tf4+, mas as brancas dispõem de duas possibilidades:
    • 44- b6 Th1+ 45- Rg3 h5! E agora:
      • b1.1)46- b7 De4 47-Rf2 Dh4+ 48-g3 Th2! 49- Rf1 Dh3+
      • b1.2) 46- Td7 Dg6+ 47- Rf2 e4!
    • 44-Rg3 e se 44-...,axb5 45- Dg4
42-..., Td1+
43-Rh2 axb5
44- Tb7?
O mais preciso e melhor para as brancas consistia em conduzir o jogo a um final de torres, com 44- Dg3 Dh5+ 45-Dh3 Dxh3 (se jogasse 45-...,Dg6 isto facilitaria o trabalho das brancas, depois de 46-Tb7 Td2 47- Txb5 Txf2 48-Txe5 Txb2 49- c4!) 46- Rxh3 Td2 47- Te7 Txf2 48-Txe6 Txb2 49- Txe5 Rg6 e então tem possibilidades de conseguir empatar. Depois do erro da jogada textual, as negras tomam o mando da luta.
44-..., Td3!
45- De2 Df4+
46- g3
46-..., Td2!
47- gxf4 Txe2
48- Txb5 exf4
E as negras conseguiram um final ganho, como resultado de suas análises. As últimas jogadas da partida foram estas: 49- Rg2 g5 50- Rf3 Te1 51- b4 Rg6 52- Tb8 e5 53- b5 e4+ 54- Rg2 f3+ (até este ponto haviam chegado as negras em seus cálculos) 55- Rh2 Tf1 56- Rg3 Tg1+ 57- Rh2 Tg2+ 58-Rh3 Rh5. As brancas tiveram que abandonar.
Kasparov, Gary. La pasion del ajedrez p.225-227


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+ comentários + 6 comentários

12 de janeiro de 2012 23:22

Hola. Creo que las blancas logran posición defendible en el final si juegan 47. Txb5 y solo luego 48. gxf4... ganando un tiempo en la defensa de su segunda linea. Sds muy buena la pagina y el articulo.

Erni Vogel
Coordinador Provincial de Ajedrez Escolar
Provincia de Misiones
Republica Argentina.

13 de janeiro de 2012 08:31

Gracias Erni, seguir participando en nuestras publicaciones. Abrazo!

28 de janeiro de 2012 22:58

PH,

Estou gostando muito das explicações. Virei fã de carteirinha deste site.

Nas suas explicações você comenta que devemos ter algumas perguntas em mente antes de fazer investida contra o rei adversario.

No entanto gostaria de saber se dentro dessas questões que você mencionou: superioridade no setor, roque inimigo debilitado etc....Não devemos ter antes de tudo isso a certeza de um centro neutralizado?

Pergunto isso por que uma vez um mestre comentou que antes de atacar os flancos tenha a certeza de ter um centro seguro que neutralize o ataque inimigo.

Talvez em outro post, você possa comentar sobre isso.

Show de bolas suas análises.

Abs

Paulo

29 de janeiro de 2012 16:03

Olá Paulo, obrigado pelos gentil elogio e é sempre um prazer ter leitores que apreciam nosso trabalho. O Mestre que te deu a dica está absolutamente correto, pois contra qualquer ataque nos flancos, os manuais de xadrez recomendam um contra ataque central, portanto é sensato que o centro esteja ao menos definido ou bloqueado(no início do post a escrito a condição de domínio central como algo a se avaliar para começar a investida ao rei contrário, talvez devesse ter colocado a questão de centro definido) . As perguntas nos dão condição de avaliar a situação de nossas forças, pode-se e deve-se incluir a questão da condição e domínio central também...Certamente em um futuro post tratarei a questão do centro. E falarei sobre a temática de contra ataque, ok? Obrigado por nos ajudar a crescer!

10 de março de 2012 16:23

Sou o Lula e não entendo nada /E muito pra minha cabeça. Dá uma pinga aí "Cumpanhero"

7 de dezembro de 2015 17:39

Partida Dilmawoman - Cunhaman (Brasília,2015) - A Dilma deve ter lido o post e mudou a estratégia contra o rei da Câmara dos Deputados Edularápio Cunha! Atacou aos flancos suíços com contas secretas!! Ele vai ter que revidar com ataque central ao Planalto (C impeachment+?).

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